PROCTER & GAMBLE - UMA EMPRESA DO DIABO
Certa vez, uma organização foi acusada de ter pacto com o Demônio. A denúncia nasceu num povoado, correu para as cidades próximas e rapidamente atingiu todo o país. A organização passou a ser hostilizada violentamente até pelos seus fiéis admiradores. Tendo - ou não tendo - pacto com o Demônio, a organização conheceu o inferno. Idade Média?
Não. Bruxas de Salém, Santa Inquisição, algum país em que um fundamentalismo - desses que existem por aí - predomina? Água, água, água.
Pasme!
País: Estados Unidos. Ano: 1981. Organização: Procter & Gamble (Faturamento à época de 12 bilhões dólares; 40 bilhões de dólares em 2001)
Que aconteceu? Durante anos, desde 1882, o símbolo visual da companhia foi um rosto humano olhando uma miríade de estrelas, no total de 13, numa referência às colônias americanas. Cem anos depois, um caipira fanático achou que as estrelas ocultavam vários símbolos satânicos, a começar pela sua composição que, a seu ver, desenhava o número do Diabo: 666. O resto do surto explicava o por quê da coisa toda. Simples. Para prosperar nos negócios, a Procter & Gamble teria feito um pacto com o Diabo. Em troco, faria o merchandising da marca diabólica em seu logotipo e, de quebra, destinaria 10% de seus lucros a uma seita satânica . Tudo como o Diabo gosta.
Um remake da Danação de Fausto , com Wall Street de pano de fundo. Se alguém tivesse feito um musical sobre esta história, teria sido sucesso na Broadway. Mas era vida real.
O boato espalhou-se como um furacão daqueles que açoitam o país e que tem nome e sobrenome. Consumidores leais telefonavam apavorados. Grupos religiosos fundamentalistas do sul dos Estados Unidos (Bible Belt) , em passeata, exigiam boicote dos produtos com a marca de Satanás. O mais fantástico de tudo é que a população, em geral, acreditou piamente na história, não se preocupando nem em esclarecer uma questão sempre presente na sociedade americana: a dedutibilidade da doação dos 10% e se eles seriam calculados antes ou depois dos impostos.
A Procter & Gamble usou de publicidade para explicar que o seu logotipo fora criado em 1882. Sustentou que a tese da contribuição ao Diabo era absurda porque a empresa pertencia a muitos acionistas , e que, tanto esses como o governo e auditores externos fiscalizavam suas aplicações de dinheiro, seus balanços, etc. Mandou dossier para dezenas de líderes religiosos e milhares de organizações. Fez centenas de coletivas na imprensa escrita e televisiva. Processou pessoas que teriam distribuído folhetos acusando a empresa. Entre os processados, tinham distribuidores de produtos de concorrentes. Durante quatro anos, as cartas-anônimas, telefonemas (uma média de 15 mil por mês) continuaram. Em 1985, a Procter & Gamble jogou a toalha tirando de seus produtos o maldito logo.
[extraído e adaptado do livro "IMAGEM EMPRESARIAL - Como as Organizações [e as pessoas] podem proteger e tirar partido do seu maior patrimônio"]
Roberto de Castro Neves, www.imagemempresarial.com
Eis o logo:

Você consegue ver o 666?


